SEM TÍTULO

20 Aug
De tudo aquilo que se pensa,
do pouco que se fala,
carrego orgulho de minhas mentiras,
são elas goles entorpecidos das minhas maiores verdades.
Lucas Galati Balieiro
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O OUTRO

14 Aug

Sou tão pequeno,

quase ninguém vê.

Conquisto espaço pelas frestas,

pelo tão pouco.

Margeio rios,

invejo seu magnifico movimento.

É o que me resta,

o que ainda não me roubaram.

Quando grito, incomodo.

Atrapalho o passo sincopado dos engravatados.

E eu noto as olhadelas de motivo sabido ,

os suspiros cansados por tamanha obviedade.

Ali, eu não sou bem vindo.

Sou disforme,

estrangeiro de mesma língua e

tão grande pátria.

Sou sempre o rascunho,

feito para nunca estar pronto.

Sou a dúvida,

que nunca pôde estar certa,

meu sangue pela rua,

se pula –

é preciso amanhecer mais um dia.

Eu sou o Outro,

aquele que não sonha,

que não sente,

que existe por uma casualidade,

um erro no percurso.

Minhas histórias serão sempre recontadas,

logo, inverossímeis.

Minha esperança é que existo,

pulso,

estou vivo.

E como o Outro , eu vou sempre continuar.

Lucas Galati Balieiro

26 Feb

O coração que escreve é o mesmo que cala. Tenho versos prontos e doses preparadas de silêncio. Mas assumo que de minhas linhas imperam o silêncio. É isso que me escreve. Ainda bem.
Lucas G.Balieiro

De partida

3 Feb

Trouxe tudo o que preciso. Tenho os meus cigarros no bolso, o melhor livro de cabeceira e uma linda estória de amor. Trouxe a foto mais antiga, a semente de uma árvore da infância e uma bússola. Tenho também as mentiras que você me pediu, o meu filme favorito e um caderno cheio de rasuras. Trago o cascalho da estrada mais longa, uma cerveja bem gelada e saudades. Carrego aqui minha cor favorita, o travesseiro da despedida mais doída. Tenho ainda meus sonhos, luvas da noite mais fria e meus óculos de grau. Trouxe apenas algumas promessas e uns comprimidos para dormir. Não me esqueci do shampoo, condicionador e do sabonete mais cheiroso que eu tinha. Gravei também um CD com um repertório para ninguém botar defeitos. Ah! Trouxe também defeitos, papéis rasgados e cartas esquecidas. Fiz uma lista com todos os meus medos, uma lanterna e uma garrafa de água. Trouxe um presente, um segredo e meu mapa astral. Tenho aqui tudo o que já acreditei, o ingresso de um show inesquecível e um guia, caso me perca. Vi agora que não me esqueci da areia, das folhas secas e do doce de abóbora. Putz! É verdade, deixa eu ver … Estão aqui sim! As maiores tristezas, meu remédio de nariz e um resto de perfume. Acho que é isso! Trouxe tudo o que preciso. Podemos ir?

Lucas Galati Balieiro

O teu copo

30 Jan

Você que cultivava as tão poucas palavras,

Disse muito.

Não sabia esconder,

Não podia,

Aquilo tudo doía dentro de você.

Dos impropérios e doses caprichadas de vodca

Encontrava a verdade,

As verdades,

Maiúsculas e suas.

Desses teus expurgos seguiam

Lágrimas de dor antiga,

Traumas de sabor infantil,

soluços daqueles que ainda sentem medo.

Medo este que você tanto temia,

Que não sabia ser dito,

Mas que, alcóolico,

Escorria,

Rasgava e

te revelava.

Poucos entendem,

Mas copos vazios

Também preenchem,

Penetram e

Relembram:

Sossegam os mais sensíveis.

Hoje o teu copo está guardado

E nele adormece, escondido, o teu maior segredo,

O teu maior fracasso,

O teu vício,

Tudo aquilo que você não suportou:

O peso de ter sido tão grande,

Tão forte,

Tão pai.

Lucas G. Balieiro

3 Dec

Num dia de muita chuva, Antonio acordou e percebeu que andava feliz. Se irritou com o tempo lá fora, se irritou em não poder sair de casa, ninguém pode ser feliz em dias assim. Arriscou ficar triste e nunca mais voltou.

Lucas G. Balieiro

(re)LEMBRAR

1 Dec

Acordei hoje pra sentir saudades,

De um tempo distante do vai vem das horas,

De um lugar pra lá dos Gerais.

Acordei pra lembrar de quando menino

Do  chão de terra batida,

meu carrinho de rolemã.

Acordei pra relembrar de quando ali anoitecia ,

Das fogueiras ,

Acesas pra falar do que se foi,

De quem se foi.

Aquecer o escuro é

Conforto também pro que ainda virá,

Saudosa sabedoria sertaneja.

Dos meus Gerais,

Carrego o gosto da terra seca,

Úmida pelas estórias das matriarcas,

Pela voz quente de meu pai,

Por estórias de amor.

Deste sertão,

Indefinido,

Doído,

Voraz,

Aprendi a chorar saudades,

Contar meus causos e

Optar pela estrada mais longa.

Como sertão,

Profundo,

Intenso,

Grande

em mim.

Lucas G. Balieiro